“É estratégico para o capitalismo europeu manter a reforma da previdência na França”

26 dez

Na avaliação do sociólogo Michael Löwy, as elites europeias temem que um recuo do governo francês geraria uma onda mais forte de protestos em todo o continente


Dafne Melo

da Redação

Para o sociólogo brasileiro radicado na França, Michael Löwy, as últimas mobilizações, no país, contra o aumento da idade para a aposentadoria foram uma das maiores desde as célebres mobilizações do Maio de 1968. Entretanto, elas não devem ser suficientes para fazer o governo de Nicolas Sarkozy recuar. Isso porque uma derrota em um país tão estratégico como a França seria inaceitável do ponto de vista do capital.

“O capital europeu está muito preocupado com um possível recuo, o que poderia gerar uma onda de protestos mais fortes em outros países. Então, é estratégico para o capitalismo europeu manter a reforma da previdência na França”, afirma o sociólogo.

No dia 28 de outubro, um dia após a aprovação do texto pela Assembleia Nacional e pelo Senado francês, as manifestações no país sofreram uma baixa, embora se mantenham. Para Löwy, o custo político dessa decisão, para Sarkozy e seus aliados, deverá ser cobrado nas próximas eleições, nas quais devem ser derrotados, pelo menos para o cargo da Presidência da República.

Hoje, o presidente francês amarga péssimos índices de popularidade, com menos de 30% de aprovação. A dificuldade em reverter a reforma da previdência na França, entretanto, não deve ser vista com pessimismo. Segundo Löwy, os últimos episódios na Europa – que viu lutas também na Grécia e Espanha, entre outros países – mostram que a saída para combater as medidas neoliberalizantes deve se dar por meio da unidade dos movimentos de toda Europa, e não de cada país isoladamente. “O que deveria ter ocorrido, por exemplo, nesses últimos meses, é uma greve geral coordenada, unificada, em toda a Europa”, aponta. Leia, a seguir, a entrevista.

Brasil de Fato – Quando a crise econômica mundial se iniciou, muitos analistas apontavam que ela era profunda e prolongada. Como ela tem se manifestado na Europa nos últimos meses?

Michael Löwy – É uma crise que começou com a bolha dos imóveis nos Estados Unidos, em 2008, e acabou desestabilizando todo o sistema. O que os governos fizeram? Particularmente na Europa, a primeira preocupação foi tirar os bancos da crise, já que eles tinham várias ações podres. Os governos intervieram com bilhões de dólares para salvar os bancos. Tem uma piada que resume bem essa situação. O ministro da Economia de um país europeu fala: “tenho uma boa notícia. Nós pensávamos que não tínhamos dinheiro em caixa, descobrimos que tínhamos vários bilhões. A má notícia é que agora não temos mais nada de fato”. Então, uma vez feita essa operação, os bancos, que eram os responsáveis pela especulação financeira e pelos títulos podres, foram salvos, só que os estados ficaram totalmente endividados. Só que alguém tinha que pagar essa conta. Naturalmente, quem a está pagando são os trabalhadores do serviço público, da educação, saúde, sistema de aposentadorias, ou seja, aquilo que atinge diretamente as classes subalternas. Essa é a lógica. Então, vem agora a austeridade, de corte neoliberal, tratando de fazer com que os pobres paguem a conta.

Desde então, tem havido muitas manifestações como há muito não se viam na Europa. Elas estão colhendo resultados?

Obviamente, essas medidas provocaram muita indignação, revoltas, protestos, greves, manifestações. A começar pela Grécia, onde está o elo mais fraco da União Europeia e onde a crise se incidiu de maneira mais dura. A Grécia conheceu uma sucessão de greves gerais e manifestações que impressionaram muito, mas não conseguiram barrar essas medidas. Além do que, o remédio foi administrado por um governo mais progressista, o que  não deixa nem uma margem de alternância, de tirar um governo e pôr outro, porque a outra opção é pior. Então, no momento, o movimento, na Grécia, está em descenso, há manifestações, mas não têm a mesma força. Bom, depois foram aparecendo protestos na França e na Espanha. Evidentemente, os protestos na França foram mais importantes. Eles vieram em seguida de uma série de escândalos de corrupção envolvendo o governo, a começar pelo ministro do Trabalho, Eric Woerth, responsável pela reforma das pensões. Essa medida apareceu como uma agressão direta aos interesses dos trabalhadores, obrigando-os a trabalhar dois anos mais antes de se aposentarem. Isso gerou uma revolta geral na sociedade, os sindicatos começaram a organizar greves e mobilizações cada vez maiores, e o governo se viu apressado para fazer passar a lei o mais rápido possível. O governo de Nicolas Sarkozy ainda tentou uma manobra com a história dos romenos e ciganos, tentando desviar a atenção da opinião pública por meio de uma campanha racista contra os ciganos, que acabou não pegando. A opinião pública reagiu negativamente e até as igrejas protestaram. A Comissão Europeia protestou, e essa manobra falhou. Mas isto mostra bem a perversidade do personagem.

Como se deu a entrada da juventude nesses protestos?

A entrada dela reforçou muito os protestos. Num primeiro momento, o governo tentou passar a mensagem de que o assunto só interessava aos aposentados, aos velhinhos, mas os jovens perceberam que eles também seriam afetados, de forma imediata, já que, se os mais velhos vão ficar mais tempo trabalhando, eles ficarão mais tempo na fila para obter trabalho. Então, a juventude, o movimento estudantil, entrou na rua. A juventude da periferia também protestou, colocando fogo em automóveis de novo. Houve uma onde de protestos, talvez uma das maiores desde o Maio de 1968 na França. Não acho que vamos conseguir ganhar, acho pouco provável, porque o governo e toda a imagem que ele constrói é de uma espécie de Bonaparte capaz de impor a sua doutrina. O capital europeu está muito preocupado com um possível recuo, o que poderia gerar uma onda de protestos mais fortes em outros países. Então, é estratégico para o capitalismo europeu manter a reforma da previdência na França. Como o governo tem a maioria do Senado e da Câmara, dificilmente vamos conseguir ganhar. Mas acho que conseguir gerar o movimento que se gerou já é uma vitória. O governo de Sarkozy vai pagar um preço político muito alto. Isso porque 71% da população era contra essa reforma. A popularidade do Sarkozy está em menos de 30%, é a mais baixa da história da Quinta República.

Há possibilidades desse movimento se radicalizar agora?

A reforma já foi aprovada, e o resultado foi uma ducha fria. Os últimos protestos já foram reduzidos. As mobilizações devem continuar por algum tempo, mas não vai conseguir ter a mesma força. Haverá uma discussão no Conselho Constitucional para ver se essa medida é constitucional e pode ser que haja uma remobilização, mas, de qualquer jeito, há uma raiva muito grande da população e qualquer medida vai acirrar os ânimos de novo.

Nas próximas eleições, em um ano e meio, as forças políticas em torno de Sarkozy devem, então, sofrer uma derrota eleitoral?

Bom, claro que não se pode prever exatamente o que vai ocorrer em dois anos, mas o mais provável é que ele não consiga perpetuar-se no poder. Ele certamente tentará resgatar o discurso, como fez da última vez, anti-imigração, a questão da ordem, da polícia, da segurança, baseado no racismo e na xenofobia. Essas são as cartas que ele tem na manga e que ele usará até as eleições. Esse tema ainda encontra muita ressonância na população. Neste momento, teve pouco, devido à forte rejeição. Mas, de qualquer modo, acredito que esse discurso não deve ser preponderante e que o mais provável é que ele seja derrotado eleitoralmente.

A Europa sempre foi considerada o lugar onde os direitos trabalhistas eram mais respeitados, devido a uma herança da social-democracia. Com a perda desses direitos, quais são as perspectivas para o trabalhador europeu nos próximos anos? Isso pode gerar uma maior organização da classe?

É difícil prever, mas, certamente, haverá uma acirramento da luta de classes. O capital quer arrancar direitos conquistados em dezenas de anos de luta e, certamente, haverá resistência. Acredito que isso seja o mais provável. O problema é que, para ganhar essa batalha, precisaríamos de um movimento unificado em toda a Europa, o que até hoje não se conseguiu. Há algumas iniciativas, mas não são suficientes. O que deveria ter ocorrido, por exemplo, nesses últimos meses, é uma greve geral coordenada, unificada, em toda Europa. Mas, com a atual direção sindical europeia, eu duvido que isso aconteça.

Por que a resistência na França é maior? Por que há maior nível de organização?

A França não é onde o movimento é mais bem organizado, pelo contrário. A taxa de sindicalização, na França, é muito baixa se comparado com a Alemanha ou Inglaterra. O que há na França é uma maior combatividade, principalmente na base dos sindicatos e na juventude. A vantagem nossa, na França, é conseguir eleger um governo um pouquinho mais favorável, o que na Grécia não é possível. A direção sindical francesa, entretanto, não quis comprar uma briga séria. Ia ser uma greve geral em dias alternados, ao invés de uma greve contínua, que talvez pudesse gerar um recuo, como em 1995, quando houve três semanas de greves ininterruptas e o governo acabou recuando. A direção sindical não quis correr esses risco e freou um pouco o movimento. O principal partido da esquerda, de oposição, teve também uma posição muito mole; no começo, chegou a fazer média com o governo. Mas não travou essa batalha. O que é necessário são forças de esquerda fortes e anticapitalistas que tenham o interesse de ir além nessas lutas. Essas forças existem. Basicamente, há três forças de esquerda: uma social liberal, com nuances mais direitistas, uma esquerda antineoliberal, e há uma esquerda declaradamente anticapitalista, como o Bloco de Esquerda, em Portugal; o Partido Anticapitalista, na França; e o Partido Socialista dos Trabalhadores, na Inglaterra, que configuram a Corrente Europeia da Esquerda Anticapitalista.

<QUEM É>

Michael Löwy é sociólogo brasileiro radicado na França, onde é pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS, na sigla em francês). É  autor de mais de dez livros, entre eles, O pensamento de Che Guevara; Marxismo, modernidade e utopia; e Walter Benjamin: aviso de incêndio. É, ainda, organizador da coleção O marxismo na América Latina: uma antologia de 1909 aos dias atuais.

“Je me propose d’agiter et d’inquiéter les gens.

Je ne vends pas le pain mais la levure.” (Unamuno)

 

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