Para novo reitor da USP, ensino público não deve necessariamente ser gratuito

17 nov

Frente a esse tipo de declaração devemos pensar em que medida um ensino público gratuito e para todos e a autonomia universitária são tabus ou princípios para a construção de uma universidade de qualidade e socialmente referenciada.

Boa sorte aos companheiros da USP nas próximas lutas!

Em defesa da Universidade Pública, Gratuita e de Qualidade!!

SÃO PAULO – A partir do próximo dia 26 de novembro, a Universidade de São Paulo (USP) terá um novo reitor. João Grandino Rodas, de 64 anos, foi escolhido pelo governador José Serra para administrar, pelos próximos quatro anos, 40 unidades nos sete campi distribuídos pela capital e interior do Estado, com um orçamento anual de R$ 2,8 bilhões.

Até o dia da posse, o professor Grandino permanece como diretor da Faculdade de Direito Largo São Francisco, onde concedeu entrevista ao iG na noite desta sexta-feira.

Paulistano do bairro de Belém, na zona leste da capital, Grandino se diz proveniente da “classe média baixa”. Estudou em colégio particular, mas formou-se em Educação e Direito pela USP, além de Música e Letras em universidades particulares, como bolsista.

Agora, mais de 40 anos depois de frequentar os bancos da USP como aluno, ele compara as duas realidades. “Visualmente, temos hoje uma porcentagem maior da classe média baixa na universidade pública do que há 45 anos”. Para ele, por dois motivos. “Primeiro, porque a classe média baixa se esforça mais para entrar. Segundo, por causa do aumento das vagas em escolas privadas”.

Para Grandino, a questão do ensino superior público e gratuito “é um tabu no Brasil”. O novo reitor defende que a universidade pública não precisa, obrigatoriamente, ser de graça. “Não existe uma co-relação necessária entre o público e o gratuito”, diz.

O professor admite, no entanto, que não há espaço para debate sobre o assunto no País. “No momento não existe para o governo, qualquer governo, uma possibilidade de discutir isso. Eu espero que no futuro isso possa deixar de ser um tabu”.

João Grandino Rodas: ensino público e gratuito é um tabu.

Público e privado

Na USP, algumas faculdades já utilizam parcerias com o setor privado para bancar o aprimoramento de suas instalações. “Não dá para gastar R$ 900 mil em uma sala de aula inteligente usando dinheiro do orçamento”, afirma. Durante sua gestão, além de procurar financiamento externo, como do BNDES, Grandino pretende dar mais autonomia para que as faculdades decidam sobre o uso de parcerias público-privadas como uma maneira de amenizar o déficit de investimento no ensino superior por parte do poder público.

Enquanto este futuro não chega, Grandino reflete sobre a injustiça do atual modelo, em que estudantes de famílias com alto poder aquisitivo têm mais chances de ocupar vagas nas universidades gratuitas. “Se fôssemos olhar diretamente, talvez não seja justo. Mas não existe ensino gratuito. Tudo é pago pelo imposto. Nesse aspecto, teria, sim, justiça. Mas, como no Brasil a maioria não consegue entrar na universidade pública por causa do ensino básico e fundamental, então é injusto”.

O novo reitor considera “extremamente impossível” o poder público dar universidade pública e gratuita para todos os que vão para a universidade privada. Como consequência, as universidades privadas “de qualidade de ensino duvidosa” entraram no vácuo deixado pelo poder público.

“Foi muito importante a passagem daquele momento em que só as elites iam às faculdades para o momento atual. A estatística melhorou, mas a escola básica e secundária piorou”. Grandino ressalta, porém, que algumas universidades particulares merecem seu reconhecimento. “Há as confessionais, católicas ou protestantes, e as fundacionais, como a Fundação Getúlio Vargas, que têm uma posição de melhor qualificação”.

Sistemas de avaliação

Outro tabu apontado por João Grandino Rodas é o do vestibular. O professor defende que a prova “é um trauma que precisa ser evitado na medida do possível”, mas ressalva que acabar com o vestibular é utopia. “Estamos muito longe disso, face aos números no Brasil”, lamenta. Além disso, ele lembra que não faz parte da cultura do brasileiro passar por uma avaliação contínua, progressiva.

Nem mesmo a unificação dos vestibulares das universidades públicas paulistas é vista pelo próximo reitor da USP como uma possibilidade mais próxima da concretização. “Há o tabu da autonomia universitária. A questão é acostumarmos a fazer isso em parceria. Eu, pessoalmente, acho que o vestibular unificado precisa ser discutido. Não tenho nada contra, mas é algo complicado”. Sobre o Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem, Grandino é categórico: “O Enem como está hoje não é possível de ser usado integralmente pela USP”.

Grandino defende que a USP precisa criar seus próprios sistemas de avaliação, “até mesmo para melhorar os sistemas nacionais”. Ele não descarta ou questiona a aplicação de exames como o Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes, o Enade, e defende a participação da USP em “todas as avaliações nacionais para poder ser comparada”.

Para melhorar a avaliação da instituição nos rankings nacionais e até mesmo internacionais, José Grandino Rodas aposta na melhoria da infraestrutura da graduação. “A USP ampliou seu número de alunos sem o incremento de estrutura, como salas e computadores, e de pessoal, como funcionários e professores. O que precisa agora é ter a adequação disso para que não tenhamos salas superlotadas ou falta de computadores”, analisa.

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